terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa

domingo, 27 de setembro de 2009

Por que segundo uma amiga, esse muito me lembra....


POEMA EM LINHA RETA

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    Álvaro de Campos

Pessoas.....

Como as pessoas são estranhas, elas são tão seguras de si que as vezes chegam ser intolerantes, cada uma com suas verdades querendo mostrar que não estão e são rendidas aos seus medos.....Pobres mortais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu, Modo de usar....


Eu, modo de usar.

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. acordo pela manhã com ótimo humor mas … permita que eu escove os dentes primeiro. toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. eu saio em conta, você não gastará muito comigo. acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. (então fique comigo quando eu chorar, combinado?) seja mais forte que eu e menos altruísta! não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. leia, escolha seus próprios livros, releia-os. odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. não seja escravo da televisão, nem xiita contra. nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes. me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca... goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua família... isso a gente vê depois... se calhar... deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. não me conte seus segredos... me faça massagem nas costas.
não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
me rapte! se nada disso funcionar... experimente me amar! Matha Medeiros